Brisbane e estágio na CSIRO

Faz muito tempo que não escrevo e não tenho nenhuma justificativa plausível para isso, apenas aquela terrível mania de sempre adiar as coisas. Mas, como é antes tarde do que nunca, cá estou para cumprir o meu dever.

Já havia falado anteriormente sobre como os meus planos para as férias de verão mudaram radicalmente. Com a oportunidade de fazer um estágio na CSIRO, tive que passar 2 meses em Brisbane ao invés de continuar viajando até Cairns e voltar para Canberra. Agora, é a hora de falar um pouco sobre a cidade e sobre o estágio.

Brisbane é a capital do estado de Queensland, localizado na costa nordeste da Austrália e cuja área representa mais de 20% de toda Austrália. Sendo a terceira maior cidade da Austrália, com aproximadamente 2 milhões de habitantes, Brisbane possui um clima tropical que raramente fica abaixo de 8 graus Celsius no inverno e, durante o verão, atinge mais de 30 graus. Construída ao longo do rio homônimo, seu objetivo inicial era comportar presos exilados da Grã-Bretanha.

Queensland e cidades (Brisbane está bem em baixo)

Na minha opinião, Brisbane encontrou o equilíbrio perfeito entre ser uma metrópole e ser uma cidade pequena. Isso porque, apesar de haver um centro comercial responsável pela maior parte dos empregos na região, cada bairro possui uma estrutura de comércio local, assim como em cidades nos Estados Unidos. Assim, tais bairros sobrevivem independentemente em relação às necessidades básicas da comunidade local, como serviços médicos, shoppings e escolas.

O centro de Brisbane é marcado pelos arranha-céus. Prédios de mais de 20 andares que se organizam de forma peculiar: as ruas no sentido norte-sul possuem nomes de antigas rainhas do Reino Unido enquanto as transversais são denominadas em homenagens a antigos reis britânicos.

Ao caminhar pelo centro, é possível notar construções muito antigas, datadas do século 19, que hoje são consideradas patrimônio histórico. Além disso, na península mais ao leste do centro, há um belíssimo jardim botânico onde os cidadãos podem descansar depois do expediente de trabalho.

No centro, também é possível encontrar a Queen Street Mall, uma rua onde concentra-se shoppings e lojas de todos os tipos, e a Roma Street Station, estação que faz conexão entre os ônibus e mais de 10 linhas de trens. Esqueci de falar, mas o transporte público em Brisbane é fantástico! Os ônibus que ligam o centro aos subúrbios mais afastados passam a cada 10 minutos e é possível ir de trem para a maior parte da cidade, inclusive outras cidades próximas, como Gold Coast e Sunshine Coast. Além disso, ainda existe o City Cat, ferryboat que faz o translado utilizando o rio.

Royal Botanic Gardens em Brisbane

Royal Botanic Gardens em Brisbane

City Cat

Na parte sul, há o Southbank: um centro cultural e de lazer para a cidade, que não possui praia. É no Southbank que ocorre as maiores comemorações em Brisbane, como o réveillon e o Australia Day. Além de contar com vários cafés, museus e uma feirinha de artesanato, ainda há uma “praia” artificial (que, convenhamos, é apenas uma piscina) patrocinada pela Streets (a Kibon daqui).

Feira de artesanato e praia artificial ao fundo

Agora vamos falar um pouco sobre o estágio. Como já havia dito, a empresa se chama CSIRO, cujo significado pode ser traduzido para Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth. Trata-se de uma empresa pública do governo australiano que busca desenvolver tecnologias e incentivar pesquisa no país. Em Brisbane, foram dois intercambistas do Ciência sem Fronteiras que conseguiram estágio: eu e o Eduardo Neiva (que também está na ANU).

A CSIRO atua em mais de 13 áreas do conhecimento diferentes, como ciências biológicas, astronomia, geologia, computação, agronomia, etc. Dentre diversas invenções, a mais conhecida é a invenção do Wi-Fi (sim, se você usa internet sem precisar conectar um cabo, é graças a eles), que sozinha já gerou mais de US$ 450 milhões de lucro.

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Logotipo da CSIRO

O projeto do qual participei, orientado por dois excelentes profissionais: David Rozado e Raja Jurdak, tratou de um estudo de novos métodos para correção de palavras erradas em sistemas de reconhecimento de voz. Basicamente, quando uma pessoa utiliza reconhecimento de voz para ditar um texto para o computador, inevitavelmente, alguma palavra será entendida erroneamente (por exemplo, ao invés de identificar “vez”, o computador entende “fez”). Atualmente, há dois métodos para corrigir essa palavra:
1. Utilizar o mouse para selecionar a palavra errada e o teclado para corrigi-la;
2. Utilizar comando de voz (“correct”) para selecionar a palavra e pronunciá-la novamente.

O problema com o primeiro método é que ele inviabiliza o sistema inteiro para pessoas que sejam portadoras de necessidades especiais, como tetraplégicos. O segundo método de correção gera desgaste, é demorado e frequentemente corrige de maneira errada.

No estágio, testei uma nova maneira de fazer esse tipo de correção: utilizando os olhos. Com a ajuda de um aparelho especializado em rastrear o foco da visão, o usuário olha para a palavra errada e uma lista de alternativas surge. Assim, é possível escolher a alternativa correta também ao olhar para a palavra.

O meu papel foi construir o software para realizar experimentos comparando esse método e os anteriores, incluindo a interface gráfica e a conexão com os sistemas de rastreamento do foco da visão e de reconhecimento de voz. Após essa etapa, eu e o David realizamos experimentos com vários usuários e estamos, atualmente, escrevendo um artigo científico para tentar enviar a um congresso aqui na Austrália (desejem-me sorte!).

Além de adquirir conhecimentos na área de computação, o estágio foi excelente para conhecer mais estudantes australianos que se interessam na mesma área e profissionais de sucesso. De fato, uma experiência única. Ficam aqui os meus agradecimentos à Embaixada do Brasil em Canberra, que teve um papel fundamental para conseguirmos esse estágio, e aos orientadores, que nos ajudaram sempre.

Bom, acho que era isso que eu tinha para contar. Agora começou o primeiro semestre do ano e meu último semestre de intercâmbio aqui na ANU e, já já, estou indo para um churrasco com os brasileiros do Ciência sem Fronteiras :)

Abraço a todos.

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8 pensamentos sobre “Brisbane e estágio na CSIRO

  1. Thaís Vieira disse:

    Olá Matheus!
    Achei mt interessante o relato do seu estágio e a enormidade dessa empresa em que vc ficou.
    Vc mencionou a Embaixada Brasileira como intermediária na negociação dessa vaga. Gostaria de saber melhor como é isso. É algo comum na aí na ANU em ter as embaixadas intercedendo pelos alunos de seus países?
    Vc sabe se essa ajuda tb pode ocorrer com alunos do CsF que estao nas outras unis?
    Obrigada!
    E meus parabéns pelo blog!

    • Olá, Thaís. Primeiramente, obrigado por acessar o blog :)
      Como faço parte da primeira remessa de alunos do CsF na Austrália, não tenho informações suficientes para dizer que seja algo comum. Entretanto, acredito fortemente que esse estágio de verão, que foi arranjado por intermédio da Embaixada do Brasil, contou com alunos de outras universidades participantes do CsF. Da ANU, se não me engano, foram 3 alunos (contando comigo).

  2. Thaís Vieira disse:

    E como ocorreu esse contato? Foi a própria Embaixada que contatou os alunos oferecendo suporte para busca de estágio?

    Obrigada pela atenção!

  3. Mayara disse:

    Olá Matheus! Muito legal seu blog! Então, eu to tentando o CsF de agora, Julho, e estamos na fase de escolher a facul e as matérias. Como eu já estou no 4 ano, indo pro 5, to querendo pegar a cadeira do estágio obrigatório aí…Será que rola? É muito difícil?

    • Olá, Mayara.
      Eu acredito que seja possível, mas acho que é importante confirmar com a sua própria universidade pois o estágio obrigatório requer uma certa burocracia por parte deles. Caso a sua universidade aceite aproveitar o estágio, acho que não haveria nenhum problema :)

  4. Rychard disse:

    Olá :) Muito legal seu blog, já tirou várias dúvidas que eu tinha, hehe :D

    Mas, quando você foi estagiar, o que fez com a sua estadia em Canberra? E como ficou a estadia em Brisbane? A CSIRO deu alguma ajuda em relação à isso?

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